Eles gostam de fazer vinho ao contrário

Começam na prateleira do cliente e só depois chegam às uvas. O objetivo é ter um portefólio representativo das diferentes regiões

Lua Cheia Team

 

Primeiro o mercado, depois o vinho, a seguir a adega, e finalmente as uvas. Foi assim que nasceu o projeto Lua Cheia em Vinhas Velhas, que junta os enólogos João Silva e Sousa e Francisco Baptista ao empresário Manuel Dias desde 2009, num trajeto por várias regiões vitivinícolas do país.

Eles dizem que gostam de “fazer os vinhos ao contrário”, a partir da prateleira dos clientes-alvo ou, mais precisamente, da perceção que Manuel Dias tem daquilo que o mercado quer através da experiência acumulada na empresa comercial Saven, onde fatura 12 milhões de euros, e em mais de 30 anos dedicados à exportação de vinhos e produtos alimentares.

Na verdade, é Manuel Dias quem costuma dizer que gosta de “fazer empresas ao contrário e sem dinheiro” e foi ele o impulsionador do projeto Lua Cheia em Vinhas Velhas, onde juntou dois enólogos do Douro vinhateiro.

Na criação da empresa combinaram parcerias e algum sentido de oportunidade para minimizar os investimentos que rondam os dois milhões de euros, sempre de acordo com “a voz de Manuel Dias”, apostado em “fazer os vinhos que o mercado procura com qualidade e preços competitivos face à oferta existente”.

“Eu tinha vinhos, o João tinha equipamento e o Manuel tinha o controlo comercial”, sintetiza Francisco Baptista, explicando que a estratégia de criação da empresa, em 2010, assentou “na troca de géneros”. Ele conseguiu os vinhos para o arranque do projeto por troca de serviços de enologia, da mesma forma que João teve equipamento. Depois, garantiram acesso à adega da Casa Agrícola Águia de Moura também a fazer e a comercializar os vinhos dessa empresa, que tinha capacidade de produção de 200 mil litros e hoje, através da parceria criada e da ampliação da adega, com partilha de equipamento, está nos 800 mil litros, 80% dos quais da Lua Cheia em Vinhas Velhas.

Em 2014, foi dado o passo seguinte, através da compra da Quinta do Bronze, no vale do Pinhão, com uma história que remonta a 1822. “Era de um senhor que tinha uma farmácia em Favaios e estava cansado de fazer vinho. A localização e a exposição eram excelentes. Foi a nossa oportunidade”, contam os enólogos, já com o primeiro vinho da sua quinta em estágio, mas ainda a escolher o rótulo certo para o apresentar ao mercado e fechar o ciclo do Douro, onde trabalham com 35 produtores para assegurar as uvas necessárias aos seus vinhos, com nomes de Lua Cheia em Vinhas Velhas, Andreza, Colleja e Secretum, num total de 400 mil garrafas por ano a que estão a juntar mais 3500 de azeite.

SELEÇÃO LUSA

Mas este quer ser um projeto de dimensão nacional, desde logo porque Manuel Dias percebeu que havia espaço para juntar à oferta vinho verde, o que o levou a avançar até Melgaço em 2012, para fazer alvarinho na Adega de Touquinheiras, um dos seus fornecedores que estava em dificuldades financeiras. Ficaram com vinha e com uma adega sem condições técnicas, por isso garantiram o apoio de fundos comunitários para criar uma adega própria na região. Compram uvas a 20 viticultores e fizeram uma parceria com uma instituição de solidariedade social que tinha quatro hectares “de vinha descuidada e mais 20 hectares de campo” para tratar da vinha existente, plantar vinha nova da restante área e ficar com as uvas ao melhor preço. E assim surgiu o portefólio de vinhos verdes da empresa, num total de 300 mil garrafas.

No Alentejo, entraram em 2013, mais uma vez “empurrados pela voz do mercado”. Não têm vinhas nem adegas, nem parcerias a sul, onde compram uvas, arrendaram um espaço de vinificação, em Estremoz, e produzem 100 mil garrafas. No ano passado, chegaram ao Dão e começam já a olhar para o Algarve e para a Bairrada, onde poderá surgir um espumante, a que deverá juntar-se um vinho do Porto produzido na Quinta do Bronze e, um pouco mais à frente, “alguma coisa das ilhas”. O objetivo é ter um portefólio abrangente, representativo das diferentes regiões portuguesas, para poder apresentar a empresa no mercado “como uma solução Portugal”, explica Manuel Dias, que espera ver a empresa crescer 15% este ano, depois dos 1,2 milhões de euros vendidos no ano passado, maioritariamente no exterior, onde começou por colocar estes vinhos em 23 mercados, do Benelux aos EUA, China e Rússia, aproveitando a sua experiência exportadora, antes de trabalhar o mercado nacional, a partir de 2014, com um grupo de seis distribuidores focados na hotelaria, restauração e retalho especializado.

AS GARRAFAS QUE VIAJAM NUM BACALHOEIRO

O que é que um bacalhoeiro tem a ver com a criação de um vinho? “Muito mais do que pode imaginar”, respondem João Silva e Sousa, Francisco Baptista e Manuel Dias, fundadores da empresa Lua Cheia em Vinhas Velhas, a recuperar a tradição dos “vinho de volta” numa parceria com o Clube de Oficiais da Marinha Mercante.

No passado, quando os bacalhoeiros partiam da Gafanha da Nazaré, abastecidos com vinho e alimentos para aguentar a temporada em alto-mar e nem tudo era consumido, todos diziam que no regresso o vinho estava diferente e melhor. Por isso, o produtor aceitou o desafio da marinha, apanhou a boleia de um bacalhoeiro que partiu da Gafanha da Nazaré e enviou 3 mil garrafas do seu vinho do Douro para estagiar durante quatro meses em alto-mar, no porão.

O vinho voltou “realmente diferente”, confirma o trio, certo de que “o balanço do barco põe os diferentes componentes químicos em contacto e essa agitação acaba por acelerar a sua evolução”, como explica o enólogo Manuel Dias.

O resultado desta primeira experiência chegará ao mercado antes do natal, com caixas individuais, acompanhadas de um certificado do capitão do navio e com carimbo pelo IVDP — Instituto dos Vinhos do Douro e Porto.

A inspiração para o rótulo veio diretamente do nome do Deus do mar na mitologia grega, por isso as garrafas deste vinho de volta vão ser comercializadas com a marca Poseidon. E, na agenda da empresa e do Clube dos Oficiais da Marinha Mercante, há já planos para enviar mais vinho à pesca do bacalhau.

 

In Expresso: Margarida Cardoso

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-11-12-Eles-gostam-de-fazer-vinho-ao-contrario